
Na Converso Educação, compreendemos a chegada de bebês e crianças pequenas à escola como um processo complexo, delicado e profundamente humano. Não se trata apenas de iniciar uma rotina fora de casa, mas de atravessar uma experiência de transição que mobiliza emoções, histórias, expectativas e vínculos — da criança, da família e da equipe.
Por isso, preferimos falar em acolhimento e inserção, e não apenas em adaptação. A inserção pressupõe um processo ativo, relacional e compartilhado, no qual a criança não é chamada a se ajustar sozinha a um novo ambiente, mas é acompanhada por adultos que organizam, sustentam e pensam intencionalmente cada etapa dessa travessia — perspectiva amplamente discutida nas pedagogias da infância e nas abordagens participativas.
Esse percurso começa antes mesmo da criança entrar na escola. Ele se inicia quando as famílias procuram um lugar, imaginam como será essa experiência, projetam como seu filho ou filha irá reagir e, muitas vezes, revisitam suas próprias memórias de separação e cuidado.
Do lado da instituição, esse processo também começa antes da chegada das crianças. Começa no planejamento coletivo, nas conversas entre os profissionais, na organização dos tempos, dos espaços e das referências. Uma equipe que é acolhida em seu retorno ao trabalho tem mais condições de acolher as famílias e as crianças. Acolher, aqui, não é um procedimento técnico; é uma postura ética institucional.
Ao ingressar na creche ou na escola, a criança atravessa territórios. Deixa um ambiente familiar, íntimo e conhecido — com seus sons, cheiros, objetos, ritmos e vínculos — para habitar um espaço coletivo, compartilhado com outros adultos e crianças. Essa passagem exige reorganizações internas importantes e convoca a escola a se tornar uma ponte segura entre esses dois mundos. A forma como a escola se apresenta nesse momento inicial — suas palavras, escutas, orientações e clareza de princípios — já constitui um gesto inaugural de acolhimento.
Nesse início, os gestos importam tanto quanto as palavras. Um cuidado fundamental é não retirar a criança do colo do pai, da mãe ou do adulto responsável de forma abrupta. O convite precisa ser feito com delicadeza: convidar a entrar, convidar para o colo do educador, apresentar o espaço — e esperar o gesto da criança e a entrega do adulto. É nessa passagem respeitada que se constrói a confiança.
Quando a criança já anda, é interessante orientar as famílias para que cheguem, sempre que possível, com a criança no chão, permitindo que ela entre andando na sala ou no pátio onde será recepcionada. Entrar com os próprios pés é, para muitas crianças, uma forma de exercer autonomia e decidir por si quando sente que está preparada e encorajada para adentrar os novos ambientes da escola.
Outro cuidado importante é evitar o “passa-passa” da criança de colo em colo, especialmente quando ela chora, na tentativa de ver “com quem ela para”. Esse movimento tende a fragilizar as referências da criança. A experiência do Instituto Pikler demonstra que a continuidade do adulto de referência é um fator central para a construção da segurança emocional. É comum que a criança manifeste maior afinidade inicial com um adulto específico; ela também é ativa nesse processo e faz escolhas. Às vezes abre os braços para um dos adultos com mais naturalidade, por razões que não conseguimos explicar, mas que, se respeitadas, podem facilitar a entrega inicial.
Também é fundamental pensar o tempo de permanência da criança na escola. Nos primeiros dias, tempos reduzidos — de uma a duas horas — favorecem uma experiência mais tranquila. Esse tempo pode ser ampliado gradativamente, respeitando o ritmo da criança e sua capacidade de sustentar separações cada vez mais longas.
As inúmeras novidades com as quais a criança se depara ao ingressar na escola mobilizam intensamente seu mundo emocional e seu corpo. Esse envolvimento demanda energia. É comum que a criança fique mais cansada e que sua rotina habitual seja temporariamente afetada por essa nova exigência em sua vida.
Ter clareza desse processo ajuda os adultos a se manterem disponíveis para ajustes e transformações na rotina. A construção de uma nova estabilidade leva tempo e exige paciência. Algumas crianças podem voltar a acordar à noite, buscando confirmar a presença dos pais ou elaborando corporalmente as experiências vividas durante o dia.
Essas vivências deixam marcas no corpo. Ao retornar para casa, a criança pode pedir mais colo, mais presença ou mais tempo para relaxar e elaborar as novidades do dia, bem como a experiência de separação e reencontro junto aos adultos de referência.
Nos primeiros dias, pode ser importante convidar o adulto que acompanha a criança ou o bebê a participar de alguns momentos de cuidado, como a troca ou a oferta do lanche. Essa participação favorece a familiarização com o espaço e permite ao educador observar como essa relação acontece, conhecer hábitos, ritmos e formas de cuidado.
A Abordagem Pikler oferece contribuições fundamentais para compreender esse processo. Emmi Pikler demonstrou que o desenvolvimento saudável depende da qualidade da relação estabelecida com os adultos que cuidam da criança, marcada por continuidade, previsibilidade e respeito aos ritmos individuais. A criança não se desenvolve porque se adapta ao ambiente, mas porque encontra adultos que organizam esse ambiente de modo previsível e confiável.
Judit Falk, ao sistematizar a experiência do Instituto Lóczy, reforça que os momentos de cuidado — troca, alimentação, sono — são experiências profundamente relacionais, e não apenas técnicas. É nesses momentos que o vínculo se aprofunda quando há presença verdadeira, atenção e coerência nos gestos. Esses momentos podem ser compreendidos como rituais, pois permitem que a criança antecipe, reconheça e confie no que vai acontecer com ela. A “coreografia” dos cuidados, praticada por todos os educadores, exerce influência direta nessa estabilidade, tão importante para que as trocas sejam cooperativas e a interação entre criança e adulto seja recíproca.
Este também não é o momento de “aproveitar a entrada” na creche para retirar a chupeta, desfraldar ou proibir objetos vindos de casa, como paninhos, nanás e bichinhos de pelúcia. Esses objetos de apego, como proposto por Winnicott, oferecem à criança, nesse momento, mediações fundamentais para sustentar emocionalmente a passagem entre casa e escola. Reconhecer o valor desses objetos não reforça dependência, mas oferece continuidade simbólica.
Da mesma forma, este não é o momento de associar a entrada na creche ao desmame. A amamentação, para além do alimento, é vínculo, regulação emocional e continuidade de uma relação profunda entre mãe e bebê. Retirá-la de forma concomitante à separação da casa e à entrada na escola pode intensificar o sofrimento do bebê e fragilizar ainda mais esse período de transição. Sempre que possível, é importante sustentar a amamentação durante o processo de inserção, respeitando o desejo da mãe e do bebê, reconhecendo que o desmame é um processo que exige tempo, escuta e condições emocionais favoráveis.
Estudos sobre a inserção na creche mostram que a forma como a criança vive a separação, o sono, a alimentação e os reencontros está profundamente ligada à qualidade das relações estabelecidas anteriormente. Não se trata de classificar ou rotular a criança, mas de compreender como ela se organiza emocionalmente na relação com seus adultos de referência.
Algumas crianças buscam proximidade constante; outras observam à distância antes de se aproximar. Esses modos de estar não indicam necessariamente problemas, mas histórias que precisam ser conhecidas para que a escola possa se tornar uma continuidade possível. Cada criança é única e tem seu ritmo, e o tempo de inserção pode variar significativamente. Algumas logo correm para brincar; outras permanecem observando; há aquelas que se escondem entre as pernas dos pais até que se sintam mais confiantes para “desgrudar”.
No caso dos bebês, que chegam no colo, essa dinâmica está intimamente ligada à entrega confiante dos pais e à fase de desenvolvimento do bebê. Por volta dos 8 a 9 meses, alguns bebês reagem à despedida com mais vigor, pois já compreendem que os pais vão embora, mas ainda não conseguem prever o retorno. A angústia da separação e o estranhamento diante de pessoas desconhecidas podem se manifestar por meio de choros mais intensos ou irritabilidade. A repetição dessas idas e vindas, aos poucos, pode ser processada pelo bebê. Os rituais do dia a dia na creche oferecem indícios da hora de ir embora, tornando a experiência mais previsível para esses bebês.
O ambiente também acolhe. Não é necessário que seja excessivamente colorido ou repleto de estímulos. Especialmente no início, espaços organizados, atrativos e sem excessos favorecem a decodificação do ambiente pela criança e contribuem para sua segurança emocional. A continuidade — encontrar novamente, no mesmo lugar, um objeto ou brinquedo que despertou interesse — cumpre esse mesmo papel.
O choro, tão presente nesse período, precisa ser compreendido como linguagem. Para bebês e crianças pequenas, chorar é comunicar. Não deve ser reprimido, abafado ou ignorado. Antes de tentar fazê-lo cessar, é preciso acolhê-lo. É diante da presença sensível de um adulto disponível que a criança vai percebendo que pode ser cuidada por esse outro.
Além do choro, existem outros sinais importantes: recusas alimentares, dificuldades para dormir, agitação excessiva ou retraimento. Esses sinais indicam que a criança ainda está em processo de construção de segurança.
A acolhida da criança pressupõe, necessariamente, estabelecer uma boa aliança com os pais. A criança percebe quando os adultos que cuidam dela estão em relação de confiança. Construir essa aliança implica escuta, diálogo, clareza e reconhecimento de que os pais também atravessam um processo de adaptação.
Nesse sentido, a realização de uma reunião de pais antes do início da frequência da criança à escola pode colaborar significativamente com o processo de inserção. Esse encontro possibilita que as famílias conheçam antecipadamente os adultos que irão cuidar de seus filhos, escutem sobre o projeto pedagógico da escola e recebam orientações importantes sobre esse período inicial.
A reunião também favorece um primeiro contato entre os próprios pais, permitindo que compartilhem dúvidas, angústias e expectativas. Reconhecer que essas inquietações são comuns e atravessam outras famílias ajuda a diminuir a sensação de isolamento e fortalece um sentimento de pertencimento e apoio mútuo.
Nesse espaço, alguns esclarecimentos são especialmente importantes. Orientações como a importância de colocar os bebês no chão, firmes, de barriga para cima, costumam causar estranhamento em muitas famílias — “bebê no chão?” — e precisam ser explicadas com cuidado. Apresentar os fundamentos dessa escolha, relacionados ao desenvolvimento motor espontâneo, à autonomia e à construção da segurança corporal, ajuda os pais a compreenderem e confiarem nas propostas da escola, entre muitas outras orientações que podem ser partilhadas nesse momento.
Acolher os pais e responsáveis exige, também, preparar a escola para recebê-los. Durante o período de inserção, é fundamental pensar onde esses adultos vão ficar, onde poderão sentar, esperar, conversar ou simplesmente observar. Esse espaço faz parte do projeto pedagógico de acolhimento e comunica, de forma concreta, que as famílias também são bem-vindas.
Esse ambiente pode contar com cadeiras ou poltronas confortáveis, café, água, acesso à internet, materiais de leitura, registros fotográficos da escola, portfólios de outros anos, revistas ou produções das crianças. A proximidade ou distância desse espaço em relação à sala deve ser pensada de modo intencional: em alguns momentos mais próximo, em outros um pouco mais afastado, conforme as necessidades do processo.
É igualmente importante definir quem cuida dos adultos nesse período. O papel do coordenador pedagógico torna-se central nesse início: é ele quem acolhe as famílias, escuta angústias, orienta, traduz o projeto pedagógico e faz a mediação entre pais e professores, liberando o educador para estar disponível integralmente para as crianças. Essa ponte institucional fortalece a confiança, organiza os papéis e sustenta o processo de inserção de forma mais cuidadosa.
No caso dos bebês que ainda mamam, é fundamental que a escola oriente as mães de forma clara e acolhedora: elas podem amamentar na creche. Podem vir nos horários combinados, permanecer o tempo necessário e também enviar o leite materno para ser oferecido ao bebê, conforme as possibilidades e os acordos estabelecidos.
Reconhecer e nomear um espaço específico para a amamentação — um canto tranquilo, com poltronas confortáveis e privacidade — comunica às famílias que a amamentação é respeitada e valorizada como parte do cuidado. A amamentação não é um problema a ser resolvido, mas uma relação a ser acolhida. Quando a escola legitima esse gesto, sustenta a continuidade do vínculo e contribui para que o bebê atravesse o processo de inserção com mais segurança emocional.
Nesse contexto, a anamnese torna-se uma aliada importante, não como formulário técnico a ser preenchido, mas como espaço de escuta e encontro, que ajuda a conhecer a história da criança, seus hábitos, ritmos e formas de cuidado.
Para que o acolhimento não fique restrito à intuição, é muito importante contar com uma pauta de observação dos primeiros dias. Observar com quem a criança chega, como reage à entrada, se aceita o convite para brincar, se chora e como é esse choro, se aceita colo, se brinca e com o quê, se observa antes de agir, se se aproxima de outras crianças, se traz objetos de apego como nanás e ursinhos. A pauta permite transformar a observação em ação pedagógica sensível e coerente. Quando a prática nasce da observação, o acolhimento deixa de ser genérico e torna-se verdadeiramente singular e intencional.
Sustentar o processo de inserção não significa prolongá-lo indefinidamente. Faz parte da entrada na escola que a criança perceba que é capaz de suportar sentimentos conflitantes e que pode contar com outros adultos para ajudá-la. Quando essa etapa é superada de forma respeitosa, a criança constrói um sentimento de competência que a acompanhará em novas experiências.
Ao longo deste artigo, destacamos desafios da entrada na creche e na escola, mas também é fundamental reconhecer o quanto esse percurso pode ser instigante e potente quando a criança encontra um ambiente rico, onde pode brincar, explorar, fazer escolhas e dar vazão à curiosidade.
Quando essa experiência é sustentada pela escolha adequada de materiais, pelo bem-estar e pelo tempo para interagir com os pares, ir para a escola pode se tornar algo desejado. Não é raro ouvir crianças dizendo, nos fins de semana: “Eu vou para a escola.”
Para que isso seja possível, é essencial reconhecer as linguagens não verbais dos bebês e das crianças pequenas. O corpo, o olhar, os gestos e os silêncios dizem muito. Como afirma Winnicott, é no ambiente suficientemente bom que a criança pode se sentir segura para existir, brincar e se expressar.
A inserção, portanto, não é um evento pontual, mas um processo contínuo, que atravessa toda a vida escolar. Sustentá-lo exige escolhas conscientes, observação, diálogo e investimento permanente na qualidade das relações.
Educar, afinal, é — antes de tudo — cuidar das relações.

Tânia Fukelmann Landau
Adulta e brincante, gosta de estudar e escrever. Lê muito e estuda tudo o que diz respeito a infância, criança e educação. Tem se dedicado a formação continuada de educadores e a cuidar de quem cuida. Viveu e ainda vive com pé no chão da escola atuando como professora, coordenadora e assessora pedagógica. É fundadora e diretora da Converso Educação, instituição de curadoria e assessoria pedagógica que inclui uma livraria especializada na área. Formada em pedagogia pela PUC-SP, com especialização em Educação lúdica pelo ISEVEC. Membro atuante da Rede Pikler Brasil.